
Alguns fatos recentes que aconteceram comigo levaram-me a refletir, como pessoa e como profissional da Psicologia, sobre como se encontra o cuidado com a saúde mental de clérigos e religiosos — indivíduos que escolheram como vocação e profissão cuidar da vida espiritual de outras pessoas.
O primeiro desses fatos foi escutar, ao final da ordenação presbiteral de um padre amigo, o bispo ordenante afirmar que padres são chamados à missão e, por isso, não devem se apegar às pessoas e aos lugares. Em mim, sentado no banco da igreja, gerou-se um profundo incômodo que tomou forma de questionamento: como pode um ser humano viver sem construir vínculos de apego seguro com as pessoas de sua comunidade e, assim, criar senso de pertencimento aos lugares que ocupa? Talvez o bispo estivesse tentando ressaltar o dinamismo da missão de um clérigo ou religioso, sempre chamado a disseminar a Palavra de Deus em todos os cantos da terra — aludindo ao evangelho de Lucas capítulo 9:58 onde se afirma que “as raposas têm covas para morar, e os pássaros têm ninhos, porém o Filho do Homem não tem onde repousar a sua cabeça aqui na terra” Contudo, isso não implica deixar de criar apego — vínculos — com as pessoas e com os lugares que tocam profundamente o nosso coração e auxiliam na construção de nossas biografias.
O segundo fato foi acompanhar, nos últimos dois anos, por meio das redes sociais, inúmeros religiosos e clérigos que me seguem — ou que eu mesmo sigo — noticiarem a morte de colegas, de diferentes idades, vítimas de suicídio: consequência severa e, sem dúvida, o pior cenário do adoecimento mental. As notas sobre esses falecimentos seguem normas éticas criadas pelo jornalismo para noticiar esse tipo de morte: são breves e sem muitas explicações. Os obituários dos meios de comunicação diocesanos seguem os mesmos padrões, ainda que, por vezes, suavizados com versículos do Evangelho que expressam a fé na ressurreição e na vida que continua — algo muito condizente dentro do contexto religioso. No entanto, ao ler tais notas, sempre me perguntei: o que será que essa vida gritou por tanto tempo em silêncio e ninguém ouviu ou acolheu? O que ela tentou dizer — e não conseguiu — e que acabou se tornando uma arma contra si mesma?
O terceiro e último fato foi viver a morte de um padre próximo, com quem tive a oportunidade de trabalhar por alguns anos. Ele foi vítima de comorbidades de saúde, como a obesidade, que tinham como pano de fundo um adoecimento mental. Aquilo que, para mim, antes era apenas leitura de notícias e bibliografia científica tornou-se algo muito próximo — uma inquietação intensa, tanto no nível pessoal quanto no profissional.
Vivemos um momento histórico em que a saúde mental é cada vez mais reconhecida como pilar central do bem-estar. Nesse contexto, emerge uma urgência particular: a construção de uma cultura de cuidado psíquico entre clérigos e religiosos. Esses homens e mulheres, que dedicam suas vidas ao serviço pastoral, ao cultivo da espiritualidade e às comunidades religiosas, também enfrentam vulnerabilidades profundas. Ignorar esse fato é negar a sua humanidade e, por extensão, comprometer a saúde espiritual das comunidades que servem. Adoecimento mental não é falta de fé, não é crise de fé ou crise vocacional — é uma condição humana que qualquer pessoa pode viver. Negar isso é um ato de desumanização.
Religiosos e clérigos não estão imunes ao adoecimento psíquico. Pelo contrário: há indícios crescentes de burnout (esgotamento emocional), fadiga por compaixão e solidão vocacional entre esses líderes. Segundo pesquisa recente realizada nos Estados Unidos, 39% dos padres relataram ao menos um sintoma de burnout, ainda que apenas 5% apresentassem os três principais sinais da síndrome — esgotamento físico, despersonalização e baixa realização pessoal.
Estudos de outros contextos também apontam fadiga crônica. No Brasil e na América Latina, revisões sobre estresse ocupacional entre sacerdotes documentam que até 60% já manifestaram algum grau de burnout, e cerca de 25% estavam em fases mais avançadas da síndrome. Em Portugal, uma amostra de 266 padres mostrou que um terço vivenciava irritação e fadiga diariamente.
Além desses dados internacionais, uma pesquisa latino-americana de grande porte publicada em periódico brasileiro reforça ainda mais a gravidade do cenário. O estudo, realizado com 881 padres, revelou que apenas 9,2% não apresentavam sinais de esgotamento; 40% tinham burnout leve, 33,4% burnout moderado e 26,2% burnout alto — isto é, um em cada quatro sacerdotes encontrava-se em nível crítico. Quanto às doenças associadas ao sofrimento emocional, os dados são igualmente alarmantes: 16% relataram doenças somáticas, 33,6% sofriam de insônia, 34,2% apresentavam sintomas de ansiedade e 7% relatavam episódios de pânico ou crises nervosas. Esses achados, provenientes de uma amostra ampla e recente, consolidam o diagnóstico de que a vida presbiteral na América Latina tem sido marcada por níveis intensos de desgaste psíquico e pela coexistência de sintomas emocionais e corporais que comprometem seriamente a saúde integral do clero.
Parte dessa sobrecarga se origina na própria natureza do ministério: relacionar-se com o sofrimento alheio, acolher dores existenciais, apoiar famílias em crises e lidar com as crises da própria Igreja — tudo isso constitui uma exposição contínua a dores que não são suas, mas exigem que ele — ou ela — carregue parte do peso. Essa “carga vicária” abre espaço para a fadiga por compaixão, forma específica de esgotamento que não decorre apenas da quantidade de tarefas, mas do custo emocional de se importar demais.
Além disso, muitos clérigos enfrentam jornadas longas, múltiplas comunidades sob sua responsabilidade e pressão institucional — seja para crescimento pastoral, seja para manutenção financeira ou cumprimento de metas. A solidão é outro fator marcante. Na França, um estudo encomendado pela conferência episcopal constatou que mais de 50% dos padres vivem sozinhos. A ausência de rede social e afetiva pode transformar a vocação em cárcere mais do que em missão libertadora.
Também pesa a estrutura hierárquica rígida, que muitas vezes inibe desabafos. Esse tipo de relação institucional pode gerar laços de apego frágeis ou inseguros, segundo a Teoria do Apego de John Bowlby. Sem vínculos seguros — relações nas quais a pessoa se sente vista, acolhida e regulada — administrar estresse e fragilidade se torna muito mais difícil. No contexto clerical, isso pode agravar a desregulação emocional, favorecer quadros depressivos e intensificar crises já instaladas.
Podíamos considerar que dados sobre suicídio entre religiosos eram raros ou nem sempre sistematizados, mas o aumento dos relatos deve nos preocupar. Na França, entre 2016 e 2020, sete padres cometeram suicídio — fato que motivou uma investigação aprofundada sobre a saúde física e mental desses clérigos. O relatório apontou, ainda, que 8% sofriam risco crônico relacionado ao abuso de álcool, além de queixas depressivas entre 10% e 20% dos entrevistados.
Em estudos psicológicos, o burnout entre clérigos está associado não apenas ao esgotamento, mas também à despersonalização (distanciamento emocional) e a uma baixa sensação de realização pessoal — fatores que podem favorecer quadros crônicos e afetar seriamente o bem-estar. Finalmente, pesquisas sobre preditores psicológicos de burnout em religiosos — padres, irmãos e irmãs — destacam que variáveis como propósito de vida, inteligência emocional e cultivo da fé e da espiritualidade têm papel protetor, enquanto fatores como depressão, ansiedade e padrões de apego inseguros podem desencadear quadros mais graves e fragilizantes.
O sofrimento mental dos clérigos transcende a dimensão individual. No plano pessoal, pode haver perda de sentido, desmotivação na missão ou espiritualidade estagnada. A desregulação afetiva — resultante algumas vezes de de vínculos inseguros — pode impedir que construam amizades profundas ou mantenham relações saudáveis, reforçando o isolamento. No nível relacional, a falta de suporte interpessoal pode gerar distância entre o líder e sua comunidade, inclusive entre outros religiosos. Isso fragiliza a fraternidade, empobrece a partilha de vida e inibe a construção de relações espirituais seguras e sustentadoras.
Uma comunidade que tem um líder emocionalmente esgotado não apenas sofre sua ausência, mas corre o risco de receber um ministério empobrecido. Um clérigo em burnout, fadiga por compaixão ou outra doença mental, pode estar menos presente, menos empático, mais ressentido ou distante. Isso compromete a qualidade do acompanhamento pastoral, a escuta compassiva e a integridade das decisões éticas e espirituais. Além disso, a falta de robustez psíquica pode minar a coerência vocacional e a resiliência ética. Um líder exaurido tem mais dificuldade para discernir, para liderar com sabedoria e para exercer sua missão sem ceder ao cinismo, à alienação ou à desilusão.
Quando a saúde mental não é valorizada institucionalmente, surgem riscos éticos: decisões precipitadas, desistência da vocação, abandono do ministério ou comportamentos autorreativos prejudiciais a si e aos outros. A fadiga por compaixão também pode comprometer a competência pastoral: aquele que escuta incessantemente sem recarga emocional pode tornar-se insensível, impessoal ou mecanicista. Por outro lado, a construção de vínculos seguros — com família, amigos, irmãos religiosos, supervisores, mentores e membros das comunidades — oferece uma base protetiva.
A Teoria do Apego, uma das abordagens da psicologia, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby no final da década de 1950, demonstra que pessoas com apego seguro desenvolvem melhor regulação emocional, constroem redes de apoio consistentes e conseguem se recuperar mais rapidamente do estresse. Para o clero, isso significa ter alguém com quem dividir dúvidas, dores e medos — e, assim, renovar a força interior para continuar a missão com lucidez, ética, dinamismo, empatia e, sobretudo, saúde mental, base para todas as outras habilidades.
Um dos maiores obstáculos para uma cultura de saúde mental no clero é o estigma. “Líderes religiosos também adoecem” é uma frase que ainda soa estranha para muitos, mas é absolutamente necessária. Há uma narrativa equivocada segundo a qual o sofrimento psíquico seria sinal de fraqueza, de falta de fé, de defeito moral ou espiritual — como se a vocação desligasse os líderes religiosos da vulnerabilidade humana. Nada poderia estar mais distante da realidade. Permanece enraizada no imaginário coletivo a crença de que clérigos e religiosos habitam uma espécie de esfera intocável, como se a missão sagrada os desligasse da própria condição humana. Nesse mito, tornam-se guardiões de luz imunes às sombras — curadores das feridas espirituais alheias, como se não carregassem as suas próprias, sustentados pela falsa suposição de que a fé, por si só, lhes fosse escudo infalível contra qualquer dor.
Ocorre que sofrimento mental não é ausência de fé; muitas vezes, é justamente o zelo excessivo pela comunidade, a entrega pastoral e a empatia profunda que geram esse peso. Reconhecer isso não significa negar a espiritualidade, mas colocá-la dentro de um cuidado integral, ético e compassivo.
É urgente que o cuidado mental de clérigos e religiosos ocorra segundo critérios científicos, éticos e responsáveis. Isso implica:
Uma cultura que admite a fragilidade é uma cultura que fortalece. Quando um padre, religioso ou religiosa admite sua dor, busca ajuda e partilha com um superior ou psicoterapeuta, ele não trai a vocação — ele a sustenta, para continuar servindo de modo saudável, íntegro e duradouro.
Como as instituições religiosas podem transformar esse cenário?
A resposta passa por políticas concretas e práticas baseadas no cuidado integral. A seguir, seguem algumas pistas que podem auxiliar na reflexão:
Construir uma cultura de saúde mental entre clérigos e religiosos não é um luxo, nem uma concessão moderna. É uma necessidade urgente. Líderes espirituais emocionalmente saudáveis sustentam comunidades mais coesas, missionárias e humanas.
Quando uma instituição religiosa cuida de seus próprios membros, ela protege não apenas o indivíduo, mas fortalece a missão, preserva a integridade vocacional e promove a credibilidade do testemunho e da fé que proclama. Reconhecer a fragilidade humana é, paradoxalmente, um ato profundo de fé — fé no cuidado, na compaixão e na possibilidade de tratamentos assertivos e de cura.
Não podemos mais fingir que líderes religiosos são invulneráveis. Conforme se acredita, dentro da dinâmica religiosa, são chamados, sim — mas também são humanos. E a verdadeira vocação floresce em uma base segura: vínculos fortes, cuidado mútuo e escuta real. Se queremos igrejas e templos mais saudáveis, a primeira comunidade a se transformar é a daqueles que servem.
Ao olharmos para a realidade do clero e da vida religiosa, somos convidados a reconhecer que há uma humanidade pulsante sob as vestes litúrgicas e os votos professados. Cada padre, cada religiosa, cada religioso carrega dentro de si histórias, medos, memórias, limites e desejos tão reais quanto os de qualquer outra pessoa. Quando esquecemos disso — quando os colocamos em um lugar de idealização coletiva ou exigência heroica — corroemos lentamente o espaço onde poderiam existir acolhimento, descanso, verdade, tratamento e cura.
E, por fim, fica a pergunta: que tipo de comunidade religiosa queremos construir — uma que exige heroísmo silencioso ou uma que sustenta vidas com compaixão, maturidade espiritual, fé e responsabilidade? A resposta não é apenas institucional ou teórica; é profundamente humana. Ela nos convoca, com senso de urgência, a construir ambientes onde a vulnerabilidade de clérigos ou religiosos(as) não seja motivo de vergonha, mas sinal de verdade; onde a dor possa ser dita e acolhida antes de se tornar insuportável; onde servir ao sagrado não custe o próprio coração. Porque, no fim das contas, é impossível cuidar da fé quando falta cuidado com aqueles(as) que têm a missão de guardá-la.
REFERÊNCIAS
AGENSIR. France: report on the state of health of priests to gain insight into the risk of burnout and depression. 27 nov. 2020. Disponível em: https://www.agensir.it/europa/2020/11/27/france-report-on-the-state-of-health-of-priests-to-gain-insight-into-the-risk-of-burnout-and-depression/. Acesso em: 15 nov. 2025.
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SILVA, Benedito Rodrigues da. A síndrome de burnout e o clero. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 33, n. esp., p. 7–22, 2023.
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